Dácia Ibiapina. Foto: Ana Carolina Matias

“Cadê Edson?”: confira a entrevista com a diretora Dácia Ibiapina

 

Leia na íntegra 


Novo longa documentário de Dácia Ibiapina, “Cadê Edson?” acompanha a trajetória dos movimentos sociais em defesa da moradia popular no Distrito Federal a partir de 2012, com ênfase no percurso de um de seus militantes. Edson Francisco da Silva é um homem negro de 40 anos, que atua hoje no Movimento Resistência Popular (MRP), e é uma das “cabeças falantes” neste filme. O título em forma de pergunta: “Cadê Edson?” surge em 2015, durante uma das duas prisões de Edson no DF. Hoje a pergunta ganha uma conotação mais ampla, tendo em vista a criminalização e desqualificação dos movimentos sociais no Brasil por parte dos governos. A seguir, confira a entrevista com a diretora Dácia Ibiapina:

Como foi o trabalho de concepção do filme? Em que momento ficou decidido que seria um filme sobre Edson Francisco da Silva?
Conheci o Edson em 2012 na ocupação Novo Pinheirinho, em Ceilândia, Distrito Federal. Nessa época ele era do MTST – o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto do DF, que era o movimento que estava fazendo a ocupação. Ele era uma das pessoas que estavam na coordenação do MTST naquele processo da ocupação de Novo Pinheirinho, que foi feita na véspera o aniversário de Brasília, do dia 20 para o dia 21 de abril de 2012. Se chamava Novo Pinheirinho porque tinha tido aquele episódio em Campinas, de um processo violento de desocupação de uma área que era chamada Pinheirinho. Depois desse episódio surgiram “novos pinheirinhos” pelo Brasil, como esse na Ceilândia.

E lá você estava lá gravando para o Ressurgentes (longa de não-ficção, 2014)?
É, estava gravando um outro filme que é Ressurgentes – Um Filme de Ação Direta. Fui na noite da ocupação com os “ressurgentes”, que eram os personagens do filme, do Movimento Passe Livre do Distrito Federal. O Ressurgentes, de certa forma, conta a história de 10 anos do MPL/DF. O pessoal do MPL aqui no DF e, acredito que no Brasil todo, é muito próximo de outros movimentos sociais, então eles agregam muito nesses processos como por exemplo de uma ocupação de sem-tetos.

A sua relação com Edson começa então no processo dessa ocupação, na filmagem? Como foi esse ponto de partida?
No dia, teve uma concentração ali na Estrutural, e de lá partiram os ônibus com as famílias que foram ocupar em Ceilândia, e teve todo aquele processo: eles chegaram, foram montar as barracas, aí logo chega a polícia e daí o Edson vai conversar com os policiais. A partir do dia seguinte eu continuei indo pra lá e gravando, filmando o processo, aí fui sendo “abduzida” pela ocupação, acompanhei bastante esse processo, que é uma das partes chaves do filme Cadê Edson.

Nesse processo todo tinha momentos de repressão, tinha momentos de compartilhamento do pessoal que morava lá, compartilhavam comida, tinha eventualmente algum apoiador que ia lá, fazia um evento, rap, teatro, música. Eu fui ficando, conhecendo o pessoal. Como a gente estava filmando, as crianças logo ficaram nossas amigas e a gente interagia muito com elas. Isso foi em 2012. Eles ficaram lá mais ou menos um mês e meio, então deu pra gente se conhecer. Teve momentos de tensão enquanto a gente estava lá, e eles nos viam como apoiadores.

E como fica para você, enquanto diretora de documentário, a construção dessa relação que acaba sendo de proximidade?

Essa pergunta não vale só para esse filme, mas para a minha profissão, de cineasta. Acho que uma boa definição de documentário é construir relações. Não é só chegar e filmar. Não se encerra e nem começa com o filme. A gente não está na ocupação filmando o tempo todo, a gente tá vivenciando também a ocupação, à nossa maneira. Então, essa construção da relação de quem está atrás das câmeras com quem está na frente, ela é fundamental no documentário.

Fazendo documentários a gente pode experienciar outras formas de estar no mundo, e isso eu prezo muito. A gente entende que não é o centro do universo, e que o nosso modo de vida não é o único possível, nem o mais interessante, nem sequer um dos mais interessantes! Fazendo documentários eu conheço pessoas que vivem de um jeito, e que me proporcionam um conhecimento sobre a vida. No caso dos sem-teto, por exemplo, sobre as pessoas que fazem essas ocupações na esperança de que possam ter uma casa. Elas me fascinam muito porque elas conseguem construir afeto e aconchego em situações muito adversas.

No filme, a ocupação do hotel Torre Palace que culmina na prisão do Edson, é ilustrada com imagens feitas pela Polícia Militar em momentos dramáticos, como quando os militantes são cercados por dois helicópteros no topo do edifício. Essas imagens têm uma linguagem própria, é uma produção cinematográfica da polícia. Como foi reunir esse material? De uma forma geral, como foi o processo de montagem?

Foi fazendo o Ressurgentes que eu me dei conta de uma coisa, sobre manifestações, repressão, ocupações etc, que é o seguinte. Eu, como documentarista, o Ivan, o Chicão, nossa equipe, não podemos ficar filmando 24 horas por dia, cobrindo todos os eventos importantes dentro de uma ocupação. Nós não somos uma rede de TV. Então eu aprendi a perder. Eu posso estar acompanhando uma ocupação e no momento mais importante não estar filmando, não estar disponível. Aí a gente perde. Como a gente pode recuperar isso de alguma forma? Utilizando outras imagens que foram feitas, seja pela mídia, seja pela polícia, seja pelos próprios ocupantes, militantes, outro colega, outro cineasta.

Atualmente todo mundo filma tudo. Sempre tem uma câmera em algum lugar registrando aquele momento. Essa é a sociedade que a gente está vivendo, falta de privacidade absurda e uma “filmação” interminável. No caso, a gente pode lançar mão disso e reconstruir o registro, juntando diferentes imagens, diferentes pontos de vista. No Ressurgentes isso foi uma grande descoberta pra mim. Porque quando um militante está no meio da manifestação, chega a repressão e ele está filmando, aquelas imagens, quando a gente assiste, é como se a gente tivesse sido transportado para dentro daquela manifestação. Então isso tem uma força, um impacto emocional pra quem faz e pra quem assiste também. Na ocupação do Torre Palace, não estávamos filmando nos momentos mais dramáticos. Então, eu procurei as assessorias de comunicação das polícias e descobri que elas próprias montaram seus filmes e divulgaram na internet. Os policiais atuaram ali como se estivessem em uma operação de guerra. Isso é marcante nos vídeos das polícias. E eles foram fundamentais na montagem do filme Cadê Edson.

Hoje, cadê Edson?
Essa é a pergunta do filme, não é? Cadê Edson? O que ele está fazendo e como ele está vivendo. Acho que esse é um momento de muita perplexidade e dificuldade de atuação. O MST, MTST, vários tipos de movimentos, o feminista, – estão num momento em que se fecham, no sentido de “Vamos ver como a gente pode atuar nessa situação politica de agora”. É um momento de muita tensão e pouca festa. Aprendi com Antônio Bispo dos Santos que a festa é importante em um contexto de luta por direitos. Ela favorece a diluição das tensões e permite, nas palavras dele, transformar “divergência em diversidade”.

O Edson saiu algemado da desocupação do Torre Palace, em 2016, direto para a delegacia com outros militantes. No dia seguinte teve a audiência de custódia, e dali, como o filme mostra, eles já saíram presos, a juíza determinou a prisão deles. Eles foram  para o centro de detenção provisório, sem vários direitos. Depois passaram, pela atuação de uma comissão dos direitos humanos, para um outro regime fechado, onde eles estavam um pouco mais protegidos em sua integridade física. Aí eles ficaram oito meses presos e depois saíram, mas para uma espécie de prisão em regime aberto. Eles têm que fornecer permanentemente endereço, contatos, podem circular durante o dia, mas à noite tem que se recolher em casa. Então é isso que eles estão passando. E isso é muito  complicado, porque sua vida está em suspenso.

E o MRP como ficou?
O movimento continua fazendo pequenas ações e reivindicando assistência social, aluguel social, reivindicando moradia. A luta continua, não é só o Edson, embora o filme tome o Edson como talvez o personagem principal, mas o movimento tem outras lideranças e tem, sobretudo, as famílias, que têm a sua necessidade que é a necessidade de uma moradia digna.

Assim como Cadê Edson começou durante Ressurgentes, algum próximo filme pode vir do contexto dele?
Tenho um novo projeto que está bem no início e não vem de nada dos projetos anteriores, é um projeto sobre comunidades quilombolas, então vou retornar ao Piauí. A única coisa que tem é que o Carneiro de Ouro (curta-metragem de não-ficção, 2017)  foi feito no Piauí, e esse outro filme também será feito lá. Dessa vez não será na Capital Federal.

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